Ocorreu um, ou uma, Chernobyl algures em mim. Houve, em mim, gente que não quiz assumir. Gente ignorante, gente menos ignorante mas cobarde. Ocorreu uma reacção em cadeia, de pensamentos, sentimentos, sensações. Escondido atrás de um cabo de vassoura, como um gato, imóvel, a ondular uma cauda, como uma barbatana, no aquário do meu próprio corpo, envelheci no isolamento da radioactividade. Acreditei durante muito tempo na teoria do acidente. Sentado à mesa do silêncio, questionando, a cada dia, a validade do amanhecer. Acreditei que estava doente de uma contagiosa solidão. Os objectos tocados irradiavam fotões do abismo. A minha arte precisava ser profundamente enterrada. De que outra forma poderia entreter o tempo?
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